Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de maio de 2010

Malditas estagiárias de calcanhar sujo

Elas não devem saber, mas quem inventou o termo, em homenagem à geração de garotas feministas e progressistas com muito discurso captado das passeatas e poucas ideias na cabeça, foi Nelson Rodrigues. (Elas não devem saber, mas ele era jornalista além de dramaturgo, escritor e cronista esportivo).

Nelson era um nostálgico dos tempos da velha imprensa, dos textos estilizados, subjetivos, pouco afeitos à objetividade e imparcialidade instituídos pelo copydesk, que despiu de adereços literários a narrativa noticiosa, instituiu-lhe uma ordem-padrão (conhecida no meio jornalístico como pirâmide invertida) e transformou a objetividade, a imparcialidade e o apartidarismo em características essenciais ao repórter, como se este fosse um mero gravador de notícias e não uma pessoa. A esta geração pós-copydesk, Nelson deu a alcunha de “Os idiotas da objetividade”. Poderia tê-los chamado de “Os hipócritas da objetividade”. Ele sabia que objetividade não era o forte de seus pares.

Sem precisar escrever bem e pensar, os idiotas da objetividade tornaram-se em pouco tempo maioria nas redações. E abriram espaço para um novo tipo de idiota, este do sexo feminino: as estagiárias de calcanhar sujo: garotas de classe-média, influenciadas pelos movimentos feministas e pelas ideias de esquerda, com muito discurso de passeata estudantil para bradar e poucas ideias na cabeça. Nelson não se conformava com as tolices e a petulância dessas garotas sempre em busca do senso-comum da esquerda da época. Teria sofrido ainda mais se soubesse que, um dia, elas seriam maioria nas redações e transformariam a tolice, a busca pelo senso-comum e os calcanhares sujos em regras básicas do jornalismo do século XXI.

Se antes os clichês proferidos por elas eram catados nas passeatas, hoje o são em seriados como Sex and the city. A ausência de ideias e a pouca capacidade de raciocínio é a mesma da década de 70. Se antes subservientes à esquerda e ao movimento feminista, hoje o são ao que dizem os assessores de imprensa. Têm pouco apreço à apuração de notícias. Esforçam-se para escrever de maneira telegráfica, têm dificuldades – sérias dificuldades – em não abreviar palavras como “você”, “tudo” e “também”.

O maior espanto delas é quando aparecem rapazes de bom nível cultural, com um discurso oriundo de ideias estabelecidas e em constante mutação, apreço pela língua-pátria (e não apenas pelo inglês, embora o fale com fluência) e uma visão horizontal a respeito dos fatos e do próprio Jornalismo que aparecem, vez ou outra, numa redação em busca de um emprego. Elas o olham com espanto. “O que este ser está fazendo aqui?”, pensam enquanto digitam textos telegráficos tirados de declarações no Twitter. “O que ele pensa que é isso aqui?” “Ele nunca pisou numa redação?”

O rapaz se apresenta à ex-estagiária de calcanhar sujo, agora jornalista de calcanhar sujo. Ele veste uma camisa de manga comprida com as mangas arregaçadas; ela veste-se como uma modelo da Festa do Peão de Barretos. Apresenta-lhe seu portfólio com artigos, reportagens, crônicas e textos noticiosos; fala dos cursos que fez fora da faculdade (Literatura, cinema e economia); discorre sobre o que acredita ser um bom jornalismo, afirma e reafirma o seu desejo em trabalhar. Ela não entende o que ele faz ali, por que ele quer ser jornalista, por que ele estudou economia, literatura e cinema, por que foi de camisa para a entrevista. É politicamente correta demais para chamá-lo de “Múmia”, como Nelson Rodrigues costumava chamar-se. Diz apenas que ele tem “Jeito de jornalista antigo” e coloca na redação mais uma estagiária de calcanhar sujo, uma garota de discurso desprovido de ideias e entremeado por gírias, texto telegráfico com abreviações de conversas de MSN, subserviência aos assessores de imprensa e chapinha no cabelo.

O rapaz vai embora dali como se não tivesse direito de fazer parte daquele universo. Sobram-lhe ideias. Faltam-lhe calcanhares sujos.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O encontro de dois homens


Tinha um compromisso marcado para às 13 horas na avenida Paulista. Como ainda eram 12h30, resolvi passar na Livraria Cultura do Conjunto Nacional e folhear uns livros. Pois bem: olho o biombo principal, desço a rampa e me deparo com quem? José Ribamar Ferreira de Araújo da Costa, o homem comum que veste desde o dia 2 de fevereiro de 1959 o homem incomum: José Sarney. Difícil dizer qual dos dois Josés estava na livraria. "É o Sarney", decidi. O Sarney: vestido num paletó e calça azul-marinho, uma camisa escura e xadrez e um sapato preto de aspecto amassado e abatido. “Não vou perder essa”, pensei. E fui até ele.


Sarney estava de costas para mim. Atrás dele, um homem mulato, de cabelos curtos e encaracolados, vestido num paletó creme, carregando uma série de pastas, papeis e uma caneta. Coloquei a mão no ombro de Sarney e, com uma efusividade repleta de ironia, disse:


– Ô senador! – ele virou-se para mim. Apertei a mão dele e comecei a balançá-la. Assim ficamos durante toda a conversa. Olhei bem nos seus olhos - ao que ele correspondeu - e reparei no seu aspecto: ele tem a pele grossa, de aspecto oleoso, o nariz e as bochechas vermelhas. As mãos, o pescoço e a careca são de cor morena, morena clara. O cabelo tem a raiz branca e aumenta de tonalidade conforme se distancia dela: do branco vai pro cinza claro, do cinza claro para o cinza escuro, deste para o preto. Com o bigode acontece a mesma coisa.


– Olá. – disse ele, um homem trêmulo, contido e tenso, desprovido de qualquer populismo ou encenação, incapaz de ser simpático. Parece alguém à espera de uma ofensa ou verdade inconveniente. Parece alguém cansado, baqueado pela tensão causada por essa espera.


– Sempre te mando e-mail. O senhor nunca responde – disse eu, sem revelar o real conteúdo dos e-mails, óbvio para qualquer homem comum.

Ele me perguntou em qual e-mail eu o enviava, eu disse que no do UOL, quase toda sexta, após ler sua coluna na Folha. Com a mão balançada pela minha, ele perguntou meu nome. Respondi:

– Danilo.

O assessor fingiu-se interessar em manter uma proximidade entre o Homem Incomum (ali tentando portar-se, desejando mais do que nunca ser um mortal como os outros, mas sem problemas financeiros) e um jovem eleitor brasileiro - que vota em São Paulo. O assessor repetiu meu nome, como se fosse ficar atento aos meus e-mails. Voltei-me a Sarney:

– Fiquei sabendo que o senhor vai operar hoje.

– Sim.

– Espero que ocorra tudo bem.

– Obrigado.

Soltei a mão de Sarney.

– Assim o senhor pode voltar com todo gás pro Senado!
– É… – disse ele, mais trêmulo, constrangido e incomodado que nunca, pronto a dar-me as costas.

– Vamos botar ordem naquela casa! – disse eu, bem alto.

Sarney acenou e virou-se de costas para mim, acompanhado por seu assessor, que também despediu-se. Mas eu decidi segui-lo. Ver o que o Homem Incomum iria fazer ao tentar-se passar por homem comum.

Sarney e seu assessor foram até à revistaria. Ficaram um bom tempo ali. O assessor guardava o seu lugar no caixa. Sem ser reconhecido, ou completamente ignorado por todos, Sarney ia, pegava uma revista, colocava-a sobre o caixa, voltava, pegava outra, colocava sobre o caixa. O assessor pagou pelas revistas - com o nosso dinheiro, provavelmente. Contou moedinhas - não sei se por necessidade ou dissimulação.

Ao ver que os dois estavam saindo da revistaria, fingi que via uns livros na estante mais próxima e disse:

– Não deixa de ver meus e-mails, hein!

Sarney acenou a contragosto e foi embora junto de seu assessor.

Durante toda essa jornada, que durou cerca de 20 minutos, fui acompanhado por um pensamento, “Que homem desagradável". E eu sei por quê. Não deve ser fácil para José Ribamar Ferreira de Araújo da Costa suportar o peso de José Sarney.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Assim caminha a humanidade


Costumava andar desatento pelas ruas. Utilizava minhas caminhadas para pensar em como melhorar a frase de um texto ou resolver o impasse de uma narrativa. Mesmo assim, nunca fui bobo. Sabia que não estava em Genebra, mas em São Paulo. Mesmo assim, fui bobo. Achei que o Mulatinho, tão desbotado quanto sua roupa e seu boné, que caminhava próximo a mim na calçada, era apenas um moleque pobre e que eu, branco e estudante de uma universidade particular, com camiseta Ellus, calça Levis e sapatênis Adidas, não passava de um burguesinho preconceituoso. Após atravessar a rua com os pés movidos pela precaução que eu julgava ser preconceito, caminhei pela outra calçada com a cultura da culpa instituída pelo politicamente correto. E tive de ouvir:

“Por que você atravessou a rua? Tá achando que eu vou te assaltar?”, perguntou o Mulatinho, que também atravessara a rua, num português menos correto.

Burguesinho branquelo, acelerei o passo do meu Adidas.

“Hein, por que atravessou a rua? Por que está andando rápido?”

Burguesinho branquelo, olhei para a marquise e respondi – num português correto:

“Atravessei a rua porque era este o meu caminho. Estou andando rápido porque estou com pressa.”

“Anda devagar, por que a pressa? Tá achando que eu vou te assaltar, moleque?” Com os olhos para a marquise, porém sem vê-la, ouvi a mesma pergunta mais duas vezes. E respondi como se responde um burguesinho branquelo, descendente da elite branca e opressora dos negros:

“Estou andando rápido porque estou com pressa! Não estou achando nada de você! Pegue seu caminho, que eu pego o meu!”

E acelerei meu Adidas (burguesinho branquelo, não tinha preocupações com a sola). Mas ele também acelerou o passo. Não me importei. A sobrevivência deu lugar ao desafio. “Um menino desses não vai desviar meu caminho”, prometi a mim. E não desviou. Mesmo arranhando minha barriga com uma faca de cozinha e pressionando o meu pescoço com a mesma. A faca, diga-se de passagem, subiu da barriga pro pescoço por um motivo muito simples: perguntado sobre meus pertences, indisposto a lhe dar um centavo, disse que tinha um maço de cigarros no bolso. E ouvi, num português cheio de cracks emitido por uma língua mole:

“Que você tá achando que sou, mano, pra me oferecer cigarro?”

Era final de outubro de 2008. Ainda não havia uma lei que me nivelasse a ele. E, por isso, respondi:

“Nada, se eu fumo por que você não pode fumar?”

Assim como para os governadores José Serra, Sérgio Cabral e o prefeito de Curitiba, Beto Richa, para o mulatinho desbotado, o cigarro era algo inaceitável. Pela sugestão, fui castigado com uma faca afundando no meu pescoço, seguida de ameaças de morte durante quinze minutos, quando, do que havia na minha mochila, restaram apenas dois livros. Ao fim de tudo, não havia um policial na rua, uma blitz, alguém que me pudesse encaminhar a uma delegacia. Houve uma mulher que passou na minha frente, quando eu estava sentado na viela, abrindo minha mochila, entregando meus pertences ao Mulatinho, com a faca no limite tênue entre a minha vida e morte – a simples maneira de ele prover seu vício. Ela passou como se tivesse visto algo tão banal como um mendigo sentado em frente ao portão de sua casa.

Quase um ano se passou desde aquele dia. Hoje, tremo levemente e olho para os lados quando acendo um cigarro na rua. Ando com pressa, meu Adidas tem menos sola. Mesmo assim, tomo cuidado, não posso esbarrar em ninguém, com um cigarro na mão. Não. As pessoas podem se assustar, como eu, em 28 de outubro de 2008, uma quinta-feira. E estarão certas, como eu estava, em outubro de 2008. Mas estarão amparadas, ao contrário de mim, naquele dia. Poderão me delatar para a polícia. Encontrarão um mutirão para me levar à polícia. Poderão, inclusive, se juntar ao Mulatinho Desbotado, na luta, no assassinato de branquelinhos burguesinhos fumantezinhos como eu. Isso se ele, o Mulatinho, já não estiver morto. É um viciado. Assim como eu. Não, seria injusto dizer isso. Nós não somos iguais. Eu sou pior. Sou branquelo, burguesinho, não deveria ser fumante. Ele, mulatinho, desbotadinho, pobrezinho, sim, pode inalar o vaporzinho que faz estalinho numa latinha. Os governantes e a polícia deixam. O problema é o cigarro. Este, sim, é o grande Mal da Sociedade.

Jornalismo Literário


"O texto jornalístico deveria ser sempre literário".


Foi isso que disse um dos jornalistas considerado pioneiro na literariedade do ofício jornalístico. Claro, aqueles que o consideram assim não conheceram a obra de Euclides da Cunha e João do Rio que, no Brasil, uniram jornalismo e literatura muito tempo antes.


Isso, porém, não tira a qualidade literária do autor de "O Reino e o Poder", que conta a história e os bastidores do jornal The New York Times, "A Mulher do Próximo", sobre as mudanças dos Estados Unidos após a revolução sexual, e "Vida de Escritor", seu último livro, em que narra fatos e apresenta textos de sua carreira como jornalista literário. (os títulos estão devidamente traduzidos para este editorial.)


Ele esteve no Brasil recentemente. Teve de trocar de quarto, na pousada em que se hospedou em Paraty, para a FLIP, porque no armário não cabiam os ternos feitos sob medida para ele. Gay Talese (na foto ao lado). O homem mais elegante da FLIP. O homem da segunda melhor palestra da FLIP. O homem que considera a imprensa contemporânea problemática demais para ainda discutirmos sobre a internet.


Ah, a internet. Sempre ela. Seria ela a grande vilã da imprensa? Eu não abro mão do jornal impresso e outros artigos da "velha mídia" (não entendo o porquê de tanta maldade; criar um termo desses...). E não abro mão de depurar meu texto. Por isso, aqui estou. Num novo blog. Na internet. Mas não para falar sobre ela. Para depurar meu texto. E me comunicar.