sábado, 7 de novembro de 2009

O Velho Artista


Quando um grande ator brasileiro muito velho morre, o povo, com sua erudição, diz uma dessas três coisas:



- Ah, que pena. Gostava dele. Qual era aquela novela que ele fazia... que ele era o pai de não lembro quem?
- Ele ainda estava vivo? Achei que já tinha morrido! Ele não fazia mais novela, né? Devia ser um frustrado. Estava na hora de morrer mesmo.
- Quem é esse? Que novela ele fez?



A explicação para isso é a mais óbvia de todas, ainda que sempre equivocada. Costuma-se dizer que “o brasileiro não tem memória”. Mas não. O brasileiro não tem cultura, conhecimento, repertório cultural. Teatro, para a maioria, é pretexto pra ver este ou aquele artista que está na novela e tirar foto no celular depois, e cinema é aquilo que passa, direto dos Estados Unidos, depois da novela, na segunda, e depois do “Zorra Total”, no sábado. O brasileiro é um ignorante e, salvo honrosas exceções, é a ignorância que dá o “chica-chica-boom-chic” e nivela o nosso povo de A à E.



Cada qual em sua morte, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran, Claudio Correa e Castro e Raul Cortez tiveram seu legado maltratado por esses comentários, após o anúncio de sua morte, sob a cara fechada de Fátima Bernardes e William Bonner. E o mesmo ocorrerá hoje à noite com o anúncio da morte de um dos primeiros galãs brasileiros e o único cineasta a receber a Palma de Ouro em Cannes, pela adaptação de “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, para o cinema.



Nascido em Salto, embora em Itu se afirme com veemência que ele é tão ituano quanto o humorista Simplício, da “Praça é Nossa”, Anselmo Duarte dividiu-se, nos anos 50, como galã principal das chanchadas da Atlântida, no Rio de Janeiro, e dos melodramas da Vera Cruz, em São Paulo. Alto, de porte, com um peitoral que o apresentava antes da própria expressão facial, Anselmo Duarte fez um lindíssimo par com Tônia Carrero no filme “O Tico-Tico no Fubá”, nos anos 50, e ainda mais lindo com a atriz Ilka Soarez, também da década de 50, só que na vida real.

Era consciente e orgulhoso da própria beleza e, com dificuldade, acreditava em outro homem tão belo quanto ele no cinema ou na TV. Por outro lado, desprezava seu trabalho como ator e não via a hora de ser cineasta.



Estreou como diretor no filme “Absoltamente certo”, uma sátira sobre os programas de perguntas e respostas que excitavam a pequena massa televisiva da época e é obrigatório aos nostálgicos de plantão, que afirmam em programas como o “Ver TV”, da TV Brasil (vulgo, a “TV de Lula” ou a “TV que ninguém vê”), como era boa a programação da TV Tupi ou da Record nos tempos da família Machado de Carvalho.



A “Palma de Ouro” veio em seguida, com “O Pagador de Promessas”, cuja adaptação para o cinema desagradou Dias Gomes – algo que nunca acontecia com este, famoso por seu desentendimento com Aguinaldo Silva, em nome da autoria de “Roque Santeiro”, novela que abandonou a cargo de Silva e quis voltar a escrever quanto esta já era o maior sucesso da nossa teledramaturgia. Mas a opinião do dramaturgo-retirante-marxista não conta. O que conta é que, para o júri do Festival de Cannes, o trabalho de Anselmo Duarte era melhor que o de Antonioni e Buñel, cineastas que concorreram junto dele em 1962.



O orgulho e a certeza da própria beleza eram, em Anselmo, tão grandes quanto a vaidade pelo temperamento difícil. Dias Gomes foi apenas o primeiro com quem ele brigou. “O Pagador de Promessas” foi seu maior sucesso em sua curta carreira como cineasta.



Seu último filme foi em 1977, “O Crime de Zé Bigorna”, onde partiu de uma mesma premissa que seria, em 1989, utilizada para a TV e geraria a novela “O Salvador da Pátria”, protagonizada por Lima Duarte no papel do eterno Sassá Mutema – que, ao morrer, sofrerá o mesmo tipo de comentário que seus pares. Ao longo dos anos 60 e 70, Anselmo filmou, “Vereda da Salvação”, seu filme preferido, porém sem sucesso. O último sucesso fora com “Quelé de Pagéu”, em 1969, protagonizado por Tarcisio Meira. No meio disso tudo, houve um filme protagonizado por Pelé, nos anos 70, chamado “Os Trombadinhas”.



A partir dos anos 60, Anselmo começou a levar uma vida discreta. Filmava pouco e fazia pequenos papéis como ator, em participações especiais. Tinha uma chácara na região de Itu e Salto e lá ficava boa parte do tempo, acompanhado de seu talento, de suas memórias e de seus cigarros. Fumou e bebeu até os 89 – mas não sei se manteve os hábitos após os problemas que teve de enfrentar com a saúde a partir do dia 16 de agosto deste ano, quando sofreu uma parada cardíaca. Passou por tratamentos, melhoras e pioras até falecer às 01h30 do dia 07 de novembro de 2009. Ainda com saúde o suficiente para manter a altivez do porte e dos passos, freqüentava restaurantes, sobretudo em Itu.



Eu o encontrei duas vezes. Aos 16 anos, num restaurante italiano da cidade, onde ele estava sentado à uma mesa logo acima da minha, na ala de fumantes (outros tempos, em que se podia fumar em restaurantes). Esta foi a segunda vez que o vi. A primeira em 1-11-94. Ele já possuía cabelos brancos e mantinha o porte da juventude. Eu tinha cabelos castanhos e bastante lisos, cortados em “tigelinha”, bochechas gordas e levemente caídas, a pele perfeita e uma irreverência natural. Gostava de desenhos animados da Disney e revistas em quadrinhos do Tio Patinhas – sobretudo quando a Maga Patalógika tentava roubar sua moedinha número 1. Queria ser desenhista da Disney – a pretensão foi sempre algo inerente a mim – e não jornalista, escritor, dramaturgo e roteirista. Fixei-me em Anselmo sem saber o que era “Palma de Ouro”, Cannes, “O Pagador de Promessas”, cineasta ou galã. E, desprovido de qualquer superego, me aproximei várias vezes de sua mesa. Ele gostou de mim. Tanto que, num cartãozinho da pizzaria, escreveu, numa letra desenhada e grande, uma das mais belas que já vi:



“Danilo, dotado de virtudes artísticas, é a mais significante visão de pureza da noite de 1-11-94.
Com a amizade do velho artista, Anselmo Duarte.”



O autógrafo está plastificado e encaixado na minha escrivaninha. Me faz companhia enquanto escrevo. Caso seus filmes se percam, como costuma acontecer no Brasil, esta pequena parte de sua memória estará para sempre guardada. Mesmo depois da minha morte.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Até tu, São Paulo?


A SÉRIE "Mad Men" ainda não estreou no Brasil. Lamento. Melhor é impossível. "Mad Men" é o retrato perfeito dos publicitários da Madison Avenue na Nova York sofisticada de 1960. Mas é mais do que isso. Um fresco sobre a grande transição americana: do aburguesamento dos "fifties" à contracultura dos "sixties". Do tédio à lixeira.Um pormenor, porém, não deixa de causar espanto entre os filistinos: o fumo. Em "Mad Men", toda a gente fuma com uma naturalidade que nos parece herética. Dentro dos edifícios, fora dos edifícios. Mães, pais. Patrões. Empregados. E médicos, é claro, a começar por um ginecologista que segura o cigarro com uma mão e faz o exame com a outra. Equilibrismo puro.Tanto fumo não deveria espantar. Pessoalmente, ainda recordo o tempo heroico em que o meu avô me levava ao cinema e fumava, em plena sala, do princípio ao fim.E, historicamente, "Mad Men" está na viragem. Em 1950, Richard Doll publicava o primeiro grande ensaio científico sobre a relação direta entre fumo (ativo) e doença. Só em 1970 chegou o mito do "fumo passivo". Digo "mito" e digo bem. Ainda está para aparecer o primeiro estudo cientificamente rigoroso capaz de mostrar uma relação sustentada entre "fumo passivo" e câncer.O que não significa que não existam estudos sobre essa hipótese. Christopher Booker, um especialista sobre as nossas histerias modernas, normalmente lembra dois. Os maiores e mais recentes. O primeiro foi realizado pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer, da Organização Mundial de Saúde. O segundo foi dirigido, durante 40 anos, por James Enstrom e Geoffrey Kabat para a Sociedade Americana de Câncer através da observação de 35 mil não fumantes que conviviam diariamente com fumantes. Resultados? Repito: um mito é um mito é um mito.Mas a ideologia é a ideologia é a ideologia. De vez em quando, afirmo que alguns traços nazistas sobreviveram a 1945. Sou insultado. Não respondo. Basta olhar em volta para perceber que algumas das nossas rotinas médicas mais básicas teriam agradado ao tio Adolfo e à sua busca de perfeição terrena. Exemplos? Certas formas de eugenia "respeitável", praticadas por milhões de pessoas quando recebem uma má ecografia. Ou a demonização absoluta que o fumante moderno conhece nos Estados Unidos. Na Europa. E agora, hélas, em São Paulo.Leio a legislação antifumo do Estado de São Paulo e reconheço a natureza totalitária dela, novamente dominada por uma ideia iníqua de perfeição física.Tudo começa pela elevação da mentira a dogma: o dogma de que "fumo passivo" é um perigo fatal para terceiros. O dogma não é apenas fantasioso; é também perigoso, porque estabelece de imediato uma divisão moral entre os agentes da corrupção (os fumantes) e as vítimas inocentes (os abstêmios). É só substituir "fumante" por "judeu"; e "abstêmio" por "ariano" para regressar a 1933.E regressar a 1933 é regressar a um mundo que desprezava a liberdade individual com especial ferocidade. A lei antifumo cumpre esse propósito. Proibir o fumo em lugares fechados, como bares ou restaurantes, é um ataque à propriedade privada e à liberdade de cada proprietário decidir que tipo de clientes deseja acolher no seu espaço. O mesmo raciocínio aplica-se aos clientes, impedidos de decidir livremente onde desejam ser acolhidos.Mas o melhor da lei vem no policiamento. Imitando as piores práticas das sociedades fechadas, a lei promove a delação como forma de convivência social. Por telefone ou pela internet, cada cidadão é convidado a ser um vigilante do vizinho, denunciando comportamentos "desviantes". Isso não é regressar a 1933. É, no mínimo, um regresso à Rússia de 1917. Se juntarmos ao quadro uma verdadeira "polícia sanitária" que ataca à paisana, é possível concluir que o espírito KGB emigrou para o Brasil.Finalmente, lembremos o essencial: os extremismos políticos só sobrevivem em sociedades cúmplices, ou pelo menos indiferentes aos extremistas. Será São Paulo esse tipo de sociedade?Parece. A última pesquisa Datafolha é sinistra: a esmagadora maioria dos paulistas (88%) aprova a lei antifumo. Só 10% se opõem a ela. Só 2% lhe são indiferentes. Mais irônico é olhar para os fumantes: depois de anos e anos de propaganda e desumanização, eles olham-se no espelho, sentem o clássico nojo de si próprios e até concordam com a lei (77%). Razão tinha Karl Kraus quando afirmava, na Viena de inícios do século, que o antissemitismo era tão normal que até os judeus o praticavam. Péssimo presságio.

***

Ao que João Pereira Coutinho disse, em sua coluna publicada da Folha de São Paulo, acrescento:

A alta aprovação da lei antifumo mostra que a sociedade brasileira não está interessada em liberdade de escolha e ação. Assim como abdica ao direito de ir e vir, agindo de maneira apática diante da violência urbana, aceita que alguém lhe transmita dogmas para levar sua vida. Se estão certos ou errados, se são verdadeiros ou mentirosos, não importa. A existência do dogma prescinde da falta de contestação. E contestar não é coisa que os brasileiros sabem fazer muito bem. Ou alguém acha que os 88% que aprovam a lei antifumo leram alguma pesquisa relativa aos supostos malefícios do fumo passivo?

***
João Pereira Coutinho foi, de tudo o que li até agora sobre esta lei, o que chegou melhor ao ponto. E levanto outra questão, sobre a qual escrevei depois:
Seria o Serra, com suas leis pragmáticas de viés totalitário, o novo tipo de político do Brasil dos próximos anos, substituindo os coroneis, bufões e paralapatões?

O Homem de Itu


1998: o escândalo do caso Clinton-Lewinsky dá um novo gás ao puritanismo americano, cuja condenação eterna é a busca de um inimigo a combater. Foram-se os índios, os ingleses, o Velho Sul, o comunismo. A economia ia bem e faltavam três anos para os ataques de 11 de setembro, que selaria de uma vez por todas o terrorismo islâmico como o novo inimigo da ideologia puritana.


Foi com esse contexto puritano de 1998 que o autor Philip Roth fechou sua trilogia sobre a América pós-guerra, marcada pelos conflitos da Correia e do Vietnã, a liberdade sexual e a ascensão de grupos sociais como os movimentos dos negros e gays, que, de mãos dadas com a elite intelectual, instituíram o politicamente correto - inicialmente, uma maneira correta de denominar minorias injustiçadas e/ ou perseguidas ao longo da história. Hoje, também uma maneira de coibir a expressão artística, o debate de ideias, a produção intelectual, o humor e o pensamento.


“A Marca Humana” narra a história de Coleman Silk, um professor/ decano demitido da universidade que modernizou após ser acusado de racismo por referir-se a dois alunos negros, que nunca foram às suas aulas, como spookies (o equivalente a zumbis).


Aposentado, Coleman, homem libertário e de vigor intelectual, revive intensamente a sexualidade por meio de um relacionamento com a faxineira Faunia Farley, trinta anos mais jovem, e do uso do Viagra. A potência forjada, que o permite viver em desacordo com o puritanismo americano no final do século XX, faz com que Coleman seja acusado de abuso sexual – e perversamente ironizado pelo politicamente correto – e acabe morto, assim como Faunia Farley.


2009: a ineficácia e corrompimento das instituições brasileiras trazem uma série de leis e eventos que coíbem as liberdades individuais. A proibição ao cigarro alastra-se em todos os ambientes fechados do país, compondo um novo aparthaid social, onde os fumantes são proibidos de sentarem acompanhados de seu cigarro nos lugares cobertos e são olhados como doentes contagiosos pelos politicamente corretos e estritamente informados de plantão e o jornal "O Estado de São Paulo" é censurado pelo juiz que conseguiu o cargo graças ao pai daquele que entrou com a ação.


Nesse contexto, um professor universitário, morador de uma cidade provinciana, sarcástico e inteligente, mantém casos, de uma tarde no motel, com moças muito mais jovens que ele – sem nunca forçá-las a nada.


Ateu fervoroso, com consistência pregava a palavra do ateísmo numa cidade interiorana marcada pelo catolicismo (sobre o qual ele escarnecia) e pela ignorância que a fé traz – mesmo quando ela é tão falsa quanto as justificativas do juiz Dácio Vieira para censurar O Estado de São Paulo. Apesar de não acreditar na família enquanto instituição, falava com orgulho e afeto dos filhos.
Na faculdade, além de ofender os alunos com seu ateísmo, os ofendia com suas piadas homofóbicas. E foi preso.


Não pelo seu ateísmo – ainda que isto fosse uma prova de sua falta de caráter para a fé e a ignorância.

Não pela sua homofobia – ainda que isto agredisse seus alunos politicamente corretos.

Sim, por sua sexualidade, no último sábado, pego num motel com três adolescentes de 14, 15 anos.

Vinha sendo investigado à quinze dias pelo DEIC (Departamento Especial de Investigação sobre Crime Organizado), após uma delação anônima (algo estimulado pela lei antifumo, mas a questão agora é o sexo.).

À prisão, seguiu-se a exoneração de seu cargo de secretário numa prefeitura e, em pouco tempo, evidentemente, ocorrerá o mesmo na faculdade em que leciona (poderia dizer o nome dela e da cidade onde trabalhava, mas não irei).

Na cidade interiorana onde vive, tão pequena e devastada pelo politicamente correto (como se já não possuísse defeitos o bastante) quanto àquela em que Coleman Silk vivia, em New England, os jovens e os adultos, que se portam como adolescentes, agem na superfície daquilo que se chama modernidade. Fazem sexo com a pessoa que conheceram na primeira noite e não ligam no dia seguinte, se divorciam, coisas que seriam chocantes até meados dos anos 60 e que hoje são banais. Mas que para eles, assim como para a massa de qualquer pequena e grande cidade, são transgressões. Sim, vivemos numa sociedade que se vangloria baseada naquela de quarenta anos atrás, deixando de se perceber, de ver sua precariedade e frivolidade, o que deixou de ser feito, o que precisa ser feito para o amanhã.


Ao saber do caso do professor, a Sociedade da Província agarra as mãos da ignorância, formando uma parede quase humana, junto do moralismo, do desejo de massificação do outro, do senso-comum, da repressão sexual e do politicamente correto, para destroçar o Professor. Acusam-no de pedófilo e culpam sua falta de Deus e crença na família por isso. (Enquanto os adultos destroçam o Professor, as filhas de cinco anos dessa sociedade calçam sandálias de salto, para andar na rua ou dançar funk, e os filhos de 9 anos estão folheando Playboys.).

Enquanto isso, a Polícia o acusa de corromper menores, coisa que essa sociedade interiorana não sabe bem o que é. “Vamos chamar de pedofilia e pronto”, dizem.

Para a província, as três garotas são tão cruéis quanto o Professor. Assim como ele, não possuem Deus no coração, não possuem família. Mas são pobres e há a legislação do politicamente correto para socorrê-las. Ou seja, estão livres do mesmo fim reservado à Faunia Farley.

A ele, o que importa não é o fim igual ao de Coleman Silk e, sim, o meio. “Ele merece ser bonequinha, apanhar na cadeia”, diz a Sociedade – perversa ela, não? Por desejar uma adolescente e transar com ela. Mais com isso: três! “Precisa de três?”, julga a Sociedade. Mesmo que a menina nessa idade já tenha uma sexualidade com curvas e lubrificação, assim como seu corpo, e saiba seduzir o rapaz de 20 e poucos anos, de costas largas e dirigindo um carro ganho do pai. E saiba também o que pode comprar com o dinheiro que o Professor ofereceu – afinal, foi tudo negociado com base no dinheiro, não foi nada, além disso, envolvendo o caso.


Praguejando o estupro, a agressão e a humilhação do Professor, a Sociedade se esqueceu de se perguntar:


“Será que ele usou Viagra?”, sem fazer qualquer analogia com Coleman Silk ou qualquer outro romance do Philip Roth. Nem Paulo Coelho vende por suas bandas, quem dirá o autor de “A Marca Humana”.



Ninguém foi criativo o suficiente para pensar numa nova versão da pornochanchada "O Homem de Itu", baseado nesse caso – e mantendo-se o título original, evidentemente.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Caro Senador

De:
Danilo Thomaz (danilo_thomaz9@hotmail.com)
Enviada:
quarta-feira, 12 de agosto de 2009 4:07:11
Para:
jose-sarney@uol.com.br

***

Senador José Sarney,

Estou escrevendo porque não moro em Brasília e, no momento, não tenho condições de ir até a cidade para tentar dizer isso na sua cara. Vamos ao que interessa.

A sua postura diante de toda essa crise é de uma arrogância sem precedentes. Culpado ou não, o senhor, sobretudo por ser um senador da República, deveria pensar no Estado brasileiro, no quanto ele tem perdido, no quanto votações sérias e importantes, que podem mudar a vida do cidadão brasileiro, estão deixando de ser feitas por conta da sua presença presidindo o Senado. A sua presença ali torna inviável qualquer trabalho. A sua presença ali torna inviável o Brasil como país.

Sentado naquela cadeira, negando acusações e inventando propósitos que não existem - de que a imprensa paulista quer derrubá-lo - o senhor fragiliza o país como instituição. Sentado naquela cadeira, culpando a imprensa por tudo, o senhor ajuda a destruir este país, o senhor ajuda os políticos a serem mais cínicos, o senhor ajuda a Justiça a ser mais desmoralizada, ajuda a aumentar a violência, o senhor piora o país como um todo sendo que, enquanto senador, deveria fazer justamente o contrário. Justamente o contrário. Aquela cadeira não é sua. O Senado não é seu. Em qualquer país civilizado, políticos que estão debaixo de tantas acusações, como é o caso do senhor, ausentam-se para que a verdade venha à tona.

Pelo presidente que o senhor foi, o senhor JAMAIS deveria ser senador, representar um estado, cuidar da unidade federal. Jamais. O senhor foi um dos piores presidentes que este país, sempre mal governado, já teve. E eu não aceito a desculpa de que o senhor não nasceu para a política e, sim, para a literatura. O senhor é um péssimo escritor. E, de todos os editoriais da Folha de São Paulo, o seu é o pior: vazio, pobre em argumentos e uso de palavras, desprovido de qualquer utilidade pública.

Eu me sinto ofendido com a sua presença no Senado e na presidência da Casa. Extremamente ofendido.


Danilo Thomaz

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Onde Mora o Perigo

Costumava andar desatento pelas ruas. Utilizava minhas caminhadas para pensar em como melhorar a frase de um texto ou resolver o impasse de uma narrativa. Mesmo assim nunca fui bobo. Sabia em que cidade estava, São Paulo. Mesmo assim fui bobo. Achei que o mulatinho, tão desbotado quanto sua roupa e seu boné, era apenas um moleque pobre e que eu, branco e estudante de uma universidade particular, com camiseta Ellus, calça Levi’s e sapatênis Adidas, não passava de um burguesinho preconceituoso. Após atravessar a rua com o instinto de sobrevivência, caminhei pela calçada com a cultura da culpa. E tive de ouvir – num português menos correto:

“Por que você atravessou a rua? Tá achando que eu vou te assaltar?”

Burguesinho branquelo, acelerei o passo do meu Adidas.

“Hein, por que atravessou a rua? Por que está andando rápido?”

Burguesinho branquelo, olhei para a marquise e respondi para ele – num português mais correto:

“Atravessei a rua porque era este o meu caminho. Estou andando rápido porque estou com pressa.”

“Anda devagar, por que a pressa? Tá achando que eu vou te assaltar, moleque?”

Com os olhos na marquise, sem vê-la, ouvi a mesma pergunta mais duas vezes. E respondi como se responde um burguesinho branquelo, sem ascendência africana e escrava:

“Estou andando rápido porque estou com pressa! Não estou achando nada de você! Pegue seu caminho, que eu pego o meu!”

E acelerei meu Adidas (burguesinho branquelo, não tinha preocupações com a sola).
Mas ele também acelerou o passo. Não me importei. A sobrevivência deu lugar ao desafio. Um menino desses não vai desviar meu caminho. E não desviou. Mesmo arranhando minha barriga com uma faca de cozinha e pressionando o meu pescoço com a mesma. A faca, diga-se de passagem, subiu da barriga pro pescoço por um motivo muito simples: perguntado sobre meus pertences, indisposto a lhe dar um centavo, disse que tinha cigarro no bolso. E ouvi, num português cheio de cracks emitido por uma língua mole:

“Que cê tá achando que sou, mano, pra me oferecer cigarro?”
Era final de outubro de 2008. Ainda não havia uma lei que me nivelasse a ele. E, por isso, respondi:

“Nada, se eu fumo por que você não pode fumar?”

Assim como para o governador José Serra, para o mulatinho desbotado, o cigarro era algo inaceitável. Pela sugestão, fui castigado com uma faca afundando no meu pescoço, seguida de ameaças de morte. Durante quinze minutos. Ao fim de tudo, não havia um policial na rua. Uma blitz. Alguém que me pudesse encaminhar a uma delegacia. Houve uma mulher que passou na minha frente, quando eu estava sentado numa viela, abrindo minha mochila, entregando-lhe meus pertences, com a faca no limite tênue entre a minha vida e apenas uma maneira de ele prover seu vício.

Quase um ano se passou desde aquele dia. Hoje, tremo levemente e olho para os lados quando acendo um cigarro na rua. Ando com pressa, meu Adidas tem menos sola. Mesmo assim, tomo cuidado, não posso esbarrar em ninguém, com um cigarro na mão. Não. As pessoas podem se assustar, como eu, em outubro de 2008. E estarão certas, como eu estava, em outubro de 2008. Mas estarão amparadas, ao contrário de mim, em outubro de 2008. Poderão me delatar para a polícia. Encontrarão um mutirão para me levar à polícia. Poderão, inclusive, se juntar ao mulatinho desbotado, na luta, no assassinato de branquelinhos burguesinhos fumantezinhos como eu. Isso se ele já não estiver morto. É um viciado. Assim como eu. Não, seria injusto dizer isso. Nós não somos iguais. Eu sou pior. Sou branquelo, burguesinho, não deveria ser fumante. Ele, mulatinho, desbotadinho, pobrezinho, sim, pode inalar o vaporzinho que faz estalinho numa latinha. O Serra deixa. Não deixa, governador?

Jornalismo Literário


"O texto jornalístico deveria ser sempre literário".


Foi isso que disse um dos jornalistas considerado pioneiro na literariedade do ofício jornalístico. Claro, aqueles que o consideram assim não conheceram a obra de Euclides da Cunha e João do Rio que, no Brasil, uniram jornalismo e literatura muito tempo antes.


Isso, porém, não tira a qualidade literária do autor de "O Reino e o Poder", que conta a história e os bastidores do jornal The New York Times, "A Mulher do Próximo", sobre as mudanças dos Estados Unidos após a revolução sexual, e "Vida de Escritor", seu último livro, em que narra fatos e apresenta textos de sua carreira como jornalista literário. (os títulos estão devidamente traduzidos para este editorial.)


Ele esteve no Brasil recentemente. Teve de trocar de quarto, na pousada em que se hospedou em Paraty, para a FLIP, porque no armário não cabiam os ternos feitos sob medida para ele. Gay Talese (na foto ao lado). O homem mais elegante da FLIP. O homem da segunda melhor palestra da FLIP. O homem que considera a imprensa contemporânea problemática demais para ainda discutirmos sobre a internet.


Ah, a internet. Sempre ela. Seria ela a grande vilã da imprensa? Eu não abro mão do jornal impresso e do Jornal da Dez, da Globo News. E não abro mão de depurar meu texto. Aqui estou. Num novo blog. Na internet. Mas não para falar sobre ela. O Brasil já tem problemas demais.