
Quando um grande ator brasileiro muito velho morre, o povo, com sua erudição, diz uma dessas três coisas:
- Ah, que pena. Gostava dele. Qual era aquela novela que ele fazia... que ele era o pai de não lembro quem?
- Ele ainda estava vivo? Achei que já tinha morrido! Ele não fazia mais novela, né? Devia ser um frustrado. Estava na hora de morrer mesmo.
- Quem é esse? Que novela ele fez?
A explicação para isso é a mais óbvia de todas, ainda que sempre equivocada. Costuma-se dizer que “o brasileiro não tem memória”. Mas não. O brasileiro não tem cultura, conhecimento, repertório cultural. Teatro, para a maioria, é pretexto pra ver este ou aquele artista que está na novela e tirar foto no celular depois, e cinema é aquilo que passa, direto dos Estados Unidos, depois da novela, na segunda, e depois do “Zorra Total”, no sábado. O brasileiro é um ignorante e, salvo honrosas exceções, é a ignorância que dá o “chica-chica-boom-chic” e nivela o nosso povo de A à E.
Cada qual em sua morte, Gianfrancesco Guarnieri, Paulo Autran, Claudio Correa e Castro e Raul Cortez tiveram seu legado maltratado por esses comentários, após o anúncio de sua morte, sob a cara fechada de Fátima Bernardes e William Bonner. E o mesmo ocorrerá hoje à noite com o anúncio da morte de um dos primeiros galãs brasileiros e o único cineasta a receber a Palma de Ouro em Cannes, pela adaptação de “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes, para o cinema.
Nascido em Salto, embora em Itu se afirme com veemência que ele é tão ituano quanto o humorista Simplício, da “Praça é Nossa”, Anselmo Duarte dividiu-se, nos anos 50, como galã principal das chanchadas da Atlântida, no Rio de Janeiro, e dos melodramas da Vera Cruz, em São Paulo. Alto, de porte, com um peitoral que o apresentava antes da própria expressão facial, Anselmo Duarte fez um lindíssimo par com Tônia Carrero no filme “O Tico-Tico no Fubá”, nos anos 50, e ainda mais lindo com a atriz Ilka Soarez, também da década de 50, só que na vida real.
Era consciente e orgulhoso da própria beleza e, com dificuldade, acreditava em outro homem tão belo quanto ele no cinema ou na TV. Por outro lado, desprezava seu trabalho como ator e não via a hora de ser cineasta.
Estreou como diretor no filme “Absoltamente certo”, uma sátira sobre os programas de perguntas e respostas que excitavam a pequena massa televisiva da época e é obrigatório aos nostálgicos de plantão, que afirmam em programas como o “Ver TV”, da TV Brasil (vulgo, a “TV de Lula” ou a “TV que ninguém vê”), como era boa a programação da TV Tupi ou da Record nos tempos da família Machado de Carvalho.
A “Palma de Ouro” veio em seguida, com “O Pagador de Promessas”, cuja adaptação para o cinema desagradou Dias Gomes – algo que nunca acontecia com este, famoso por seu desentendimento com Aguinaldo Silva, em nome da autoria de “Roque Santeiro”, novela que abandonou a cargo de Silva e quis voltar a escrever quanto esta já era o maior sucesso da nossa teledramaturgia. Mas a opinião do dramaturgo-retirante-marxista não conta. O que conta é que, para o júri do Festival de Cannes, o trabalho de Anselmo Duarte era melhor que o de Antonioni e Buñel, cineastas que concorreram junto dele em 1962.
O orgulho e a certeza da própria beleza eram, em Anselmo, tão grandes quanto a vaidade pelo temperamento difícil. Dias Gomes foi apenas o primeiro com quem ele brigou. “O Pagador de Promessas” foi seu maior sucesso em sua curta carreira como cineasta.
Seu último filme foi em 1977, “O Crime de Zé Bigorna”, onde partiu de uma mesma premissa que seria, em 1989, utilizada para a TV e geraria a novela “O Salvador da Pátria”, protagonizada por Lima Duarte no papel do eterno Sassá Mutema – que, ao morrer, sofrerá o mesmo tipo de comentário que seus pares. Ao longo dos anos 60 e 70, Anselmo filmou, “Vereda da Salvação”, seu filme preferido, porém sem sucesso. O último sucesso fora com “Quelé de Pagéu”, em 1969, protagonizado por Tarcisio Meira. No meio disso tudo, houve um filme protagonizado por Pelé, nos anos 70, chamado “Os Trombadinhas”.
A partir dos anos 60, Anselmo começou a levar uma vida discreta. Filmava pouco e fazia pequenos papéis como ator, em participações especiais. Tinha uma chácara na região de Itu e Salto e lá ficava boa parte do tempo, acompanhado de seu talento, de suas memórias e de seus cigarros. Fumou e bebeu até os 89 – mas não sei se manteve os hábitos após os problemas que teve de enfrentar com a saúde a partir do dia 16 de agosto deste ano, quando sofreu uma parada cardíaca. Passou por tratamentos, melhoras e pioras até falecer às 01h30 do dia 07 de novembro de 2009. Ainda com saúde o suficiente para manter a altivez do porte e dos passos, freqüentava restaurantes, sobretudo em Itu.
Eu o encontrei duas vezes. Aos 16 anos, num restaurante italiano da cidade, onde ele estava sentado à uma mesa logo acima da minha, na ala de fumantes (outros tempos, em que se podia fumar em restaurantes). Esta foi a segunda vez que o vi. A primeira em 1-11-94. Ele já possuía cabelos brancos e mantinha o porte da juventude. Eu tinha cabelos castanhos e bastante lisos, cortados em “tigelinha”, bochechas gordas e levemente caídas, a pele perfeita e uma irreverência natural. Gostava de desenhos animados da Disney e revistas em quadrinhos do Tio Patinhas – sobretudo quando a Maga Patalógika tentava roubar sua moedinha número 1. Queria ser desenhista da Disney – a pretensão foi sempre algo inerente a mim – e não jornalista, escritor, dramaturgo e roteirista. Fixei-me em Anselmo sem saber o que era “Palma de Ouro”, Cannes, “O Pagador de Promessas”, cineasta ou galã. E, desprovido de qualquer superego, me aproximei várias vezes de sua mesa. Ele gostou de mim. Tanto que, num cartãozinho da pizzaria, escreveu, numa letra desenhada e grande, uma das mais belas que já vi:
“Danilo, dotado de virtudes artísticas, é a mais significante visão de pureza da noite de 1-11-94.
Com a amizade do velho artista, Anselmo Duarte.”
O autógrafo está plastificado e encaixado na minha escrivaninha. Me faz companhia enquanto escrevo. Caso seus filmes se percam, como costuma acontecer no Brasil, esta pequena parte de sua memória estará para sempre guardada. Mesmo depois da minha morte.


